Thursday 1 March 2012

#Brasil: Ameaçado de morte, agricultor não indenizado por Belo Monte está desaparecido / #Brazil: Farmer threatened with death, not compensated for his land by Belo Monte, has disappeared


(The English text can be found immediately below the Portuguese text)

Sem notícias do pai desde segunda, 27 de fevereiro, as duas filhas visitaram a terra de Sebastião para procurá-lo. Não o encontraram, mas viram toda sua plantação de cacau destruída pelos tratores
Publicado em 01 de março de 2012
Por Xingu Vivo
O agricultor Sebastião Pereira, marido de Maria das Graças Militão, proprietária de dois lotes de terra que hoje pertencem à Norte Energia, localizados onde agora se constrói o canteiro de obras do Sítio Pimental da Usina Hidrelétrica Belo Monte, foi expropriado, não recebeu indenização, foi ameaçado de morte e está desaparecido desde segunda-feira, dia 27 de fevereiro.
O agricultor em sua casa, dois dias antes de desaparecer                        The farmer at this home two days prior to his disappearance
Quem se lembra do seu Sebastião? Publicamos, em 2011, uma reportagem sobre como a Norte Energia havia tomado sua terra à força, sem ter pago indenização. Este episódio é parte fundamental da história.
Isso aconteceu em setembro passado. Sebastião ainda não recebeu o dinheiro que deveria ter sido pago pela empresa.
Sebastião, 67 anos, está desaparecido. É agricultor. Cultivava cacau, açaí, abacaxi, castanhas. Suas plantações foram destruídas pelas máquinas que constroem a Usina Hidrelétrica Belo Monte. Havia uma sentença judicial, baseada em um Decreto de Utilidade Pública (DUP) emitido pelo governo federal, que permitia a empresa a expropriá-lo, destruir sua casa e espoliá-lo, sem que recebesse a indenização.
Sebastião, no entanto, nunca saiu de sua terra. Tem uma personalidade forte e singular, e com ela construiu boa relação com os funcionários do consórcio – estes permitiam que ele transitasse por sua terra e utilizasse as estradas privatizadas dos canteiros, mesmo depois de ter sido expropriado. Conseguia todo tipo de carona – para ele e o escoamento da produção. Pura camaradagem e empatia. Enquanto isso, na cidade, sua esposa cuidava do processo judicial que reivindica a indenização e que pode levá-los a receber uma indenização menos injusta.
Estrada privativa por onde Sebastião acessava sua terra                                Private road Sebastião used to access their land
Na cidade, sua esposa recebe, no dia 22 de fevereiro, um ultimato: a Justiça lhes dava 72 horas para desabitar definitivamente a terra. Foi por este motivo que, na segunda-feira, 27 de fevereiro, as coisas mudaram. Sem dar muita atenção ao recado do Estado de Direito, Sebastião foi de Altamira para seu sítio para cuidar do cacau nascente e tirar castanhas.
Contudo, os guardas do canteiro não permitiram que ele entrasse. Sebastião foi ameaçado de morte.
Segundo relato de um funcionário da empresa à família de Sebastião, o agricultor teria dito aos guardas que ele entraria de qualquer jeito, e que enquanto não o pagassem, ele não deixaria a terra e continuaria trabalhando lá: “Vocês só derrubam o meu cacau se me matarem primeiro”. “Então é isso o que vai acontecer com você. Você vai morrer”, teria sido a resposta dos guardas. No impasse, Sebastião entrou pela mata, abrindo uma picada com o facão. Desde então, não foi mais visto.
Filha de 14 anos percorre cacaueiro cultivado pelo pai                                            14 year old daughter walks by the cacao cultivated by her father
Sebastião tem quatro filhos. Para que pudessem estudar, todos os filhos se mudaram para a cidade de Altamira (para financiar essas vidas, Sebastião continuava no campo). O mais velho viveu sem eletricidade os primeiros 16 anos de sua vida – hoje tem 21. O pequeno tem cinco. As duas meninas, 14 e 16 anos de idade, estiveram na quinta-feira, 1, no sítio, a procura do pai. Não o encontraram. Andaram cerca de oito quilômetros, aos gritos. Mergulharam as pernas nos igapós, cruzaram mata fechada e estradas abertas para a barragem. A única coisa com a qual se depararam foi toda a plantação de cacau da família destruída. Só o cacau. Para que Sebastião não colhesse e para que não trabalhasse. Foi isso que elas viram, escorregando em tabatinga e ouvindo ronronar de tratores, caminhões e explosões das rochas.
Em silêncio, seguranças e encarregados ouvem aos questionamentos da filha de Sebastião                                                                                                            In silence, security guards listen to questions asked by the daughters of Sebastião
As meninas então caminharam até encontrar uma guarita, na propriedade de um grande fazendeiro que ladeava a da família, onde hoje se encontra uma extensa terraplanagem. Os seguranças pediam a elas que se retirassem. Elas disseram não. E perguntaram sobre o pai, Sebastião, analfabeto, agricultor. “Eu só sei fazer trabalhar”, dirá ele todo o tempo, em qualquer conversa. Eles não sabiam de Sebastião. “Derrubamos o cacaueiro ontem”. E as botaram em uma picape até a picada que levaria à beira do rio, onde pegariam um barco até o Porto Seis, em Altamira, de onde seguiriam de taxi até a casa alugada onde vivem com a mãe e os irmãos, de onde depois sairiam para ir à delegacia prestar queixas do desaparecimento e da ameaça de morte do pai e marido.
As meninas choravam muito pisando o cacau caído, como gente grande. Em casa, o filhinho, 5, chorava muito como o menininho que era. A mãe vestia uma camisa do Sepultura, do filho mais velho, maquiagem borrada. E vão esperando Sebastião chegar.
Mas Sebastião, que nasceu em Alagoas, que mudou para São Paulo e para o Paraná e enfim para o Pará, onde afinal plantou o cacau que o dava de comer e ensinou a filha a tocar guitarra, ainda não veio.
Texto e fotos: Ruy Sposati                                                                                                                 

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With no news of their father on MondayFebruary 27two daughters visited the land of Sebastião to look for himThey did not find him, but saw his cocoa plantation destroyed by bulldozers.


Published on March 1, 2012
By Xingu Vivo


The farmer Sebastião Pereira, husband of Mary of Graces Militaoowns two parcels of land that now belong to North Energylocated where it now builds the job site for the Pimental Belo Monte Hydroelectric Plant. This land was expropriate and the farmer received no compensation in return. He was threatened with death and has been missing since MondayFeb. 27.


Who remembers their SebastiãoPublished in 2011, this is a report on how North Energyhad taken their land by force, without paying compensation. This episode is a fundamental part of the story. 


This happened last SeptemberSebastião had not received the money that should have been paid by the company


Sebastião, agre 67has disappeared. He was a farmer who cultivated cacao, açaí, pineapple,and nuts. His crops were destroyed by the machines that built the Belo Monte Hydroelectric PlantThere was a court decision, based on a Public Utility Decree (PUD) issued by the federal government, which allowed the company to expropriate his property, destroyed his house and the spoils in it, and he received no compensation


Sebastião, however, never left his land. He had a strong personality and unique, and had built good relationship with officials of the consortium - these allowed him entrance and exit via their land and would use the privatized roads, even after having been expropriated. I used what he could - for himself and to maintain his farming operationPure camaraderie and empathy. Meanwhile, in the city, his wife took care of the legal proceedings claiming damages and that could lead them to receive compensation without injustice. 


On February 22, in the city, his wife received an ultimatum: the Justice system gave them 72 hours to permanently vacate their land. It was for this reason thatin the Monday, February 27, things changed. Without giving much thought to scrap the rule of lawSebastian was the caretaker of his land and attempted to remove the cocoa nuts/clear his produce from his land(this last sentence may not be entirely accurate - pls help if you can) 


However the guards of the road beds would not permit him to enter. Sebastião's life was threatened. 


According to one official of the company to the family of Sebastião, the farmer would have told the guards that without compensation he would not leave the land and would continue working there"You will have to kill me first. "So that's what will happen to youYou will die," would have been the response from the guardsIn the impasseSebastião then entered the woods, opening a trail with his macheteSince then, he was not seen again. 


Sebastião has four childrenSo they could study, all the children moved to the city of Altamira (to pay for themSebastian was still working in his fields)The oldest lived without electricity the first 16 years of his life -  he is now 21. The youngest is fiveThe two girls, 14 and 16 years old, were at the site on Thursdaysearching for their father. They did not find him.They walked about five milesyelling for their father. Wading in flooded areas, dense forest and then crossed the open road to the damThe only thing they encountered throughout the family's cocoa plantation was destruction. Only cocoaFor Sebastião did not have a chance to harvestThat's what they saw, sliding on clay and listening to the purr of tractors, trucks and explosions of rock


The girls then walked to find a hut on the property of a large farmer who helped the family, where today there is extensive excavation activity. The security guards asked them to leave. They said no. When they asked about their fatherSebastião, an illiterate farmer, the answer is "I just do work," they say it all the timein any conversationThey did not know Sebastião."We cut down cacao yesterday." And they put it in a pickup truck up the road which led to the river, which would take a boat to the Port Six in Altamirawhere they would take a taxi to the rented house where they live with their mother and siblings. From there they would go to the station to make complaints and report the threats on the life of their father and husband, as well as his disappearance


The girls cried a lot stepping on the cut cocoa, as did the big boy. At home, the little boyfive, cried a lot like the little boy he wasThe mother wore a shirt of Sepultura, the eldest son, her makeup smearedAnd hoping Sebastião would return


But Sebastião, who was born in Alagoas, who moved to Sao Paulo and Parana, and finally to Paráwhere he ultimately planted cocoa that had fed them and taught their daughter how to play guitarhas not returned home




Text and Photos: Ruy Sposait

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